Alicenógena
Tarde, já de manhã cedinho Quando a névoa toma conta da cidade Quem pega no violão Sou eu, sou eu Pra cantar a novidade Quantas lágrimas de orvalho na roseira .Todo mundo tem um canto de tristeza Graças a deus um passarinho Vem me acompanhar Cantando bem baixinho E eu já não me sinto só Tão só, tão só Com o universo ao meu redor. (Universo ao meu redor / Marisa Monte)
Quem foi que disse que a tendência é dar certo?
Hoje no auge de uma TPM fudida já penso totalmente o contrário.
A tendência é dar certo sempre, desde que se esteja de acordo e acredite que é possível.
Ave Maria, mãe de ninguémRaul MirandaAve Maria, Mãe de Ninguém,olhai pelos que não tem vintéme caem a toda hora na tentaçãode aliviar o peso do corpoe a dor que perfura a alma.Ave Maria, Mãe de Ninguém,olhai pelos que querem alguéma multiplicar a carne do amorcom o suor vindo do próprio vivere vencer o anjo da solidão.Ave Maria, Mãe de Ninguém,perdoai a insistência em ser felize iluminai os campos do paísdando de comer a quem tem fomedando de viver a quem tem nome.Ave Maria, Mãe de Ninguém,deixai que os homens durmam em pazpois que aos dias o inferno ardee em cada esquina da cidadeuma ameaça paira sobre as casas.Ave Maria, Mãe de Ninguém,perdoai os loucos e os bêbados,que tentam fugir um pouco da vida,e que vêem cavalos de fogopuxando carruagens de cristal.Ave Maria, Mãe de Ninguém,abrandai a falta de poesiae deixai a vida nas mãos dos homensaté que estes se cansem de morrersem decifrar o enigma de viver.Ave Maria, Mãe de Ninguém,não nos deixai cair em histeriae nem nos roube a valentia de cruzar imensos mesesacreditando sempre nos humanos.Ave Maria, Mãe de Ninguém,abençoai os que amam a liberdadee a defendem em outras línguas.Lavai o amargor dos meus olhospara que os amigos me leiam melhor.
As coisas não são perfeitas simplesmente por assim serem, mas por terem a incapacidade de atender por inteiro nossos desejos e expectativas.
Retrato do tempoRaul MirandaAbençoado seja o homem que ri e passa horas sem sentir o cheiro de pólvora e naftalina, e que faz as crianças imaginarem como seria diferente o mundo se a escola ensinasse a vida se a escada nos levasse para o alto. Abençoado seja o homem que pára e repara na escassez de sonhos, recompondo a imagem primeira, seja ele mulato, branco ou triste. Abençoado seja o homem que fica e desobriga o choro noturno , ensinando o manejo das idéias para melhor mexer nos dias. Quem puder fale por mim as palavras de hoje e de sempre até que os homens se cansem de fazer da vida algo ruim.
Poema em linha retaÁlvaro de Campos (Fernando Pessoa)Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó principes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.