Alicenógena

Thursday, February 22, 2007

Tarde, já de manhã cedinho
Quando a névoa toma conta da cidade
Quem pega no violão
Sou eu, sou eu
Pra cantar a novidade
Quantas lágrimas de orvalho na roseira .
Todo mundo tem um canto de tristeza
Graças a deus um passarinho
Vem me acompanhar Cantando bem baixinho
E eu já não me sinto só
Tão só, tão só
Com o universo ao meu redor.

(Universo ao meu redor / Marisa Monte)

Tuesday, January 09, 2007

Quem foi que disse que a tendência é dar certo?
Hoje no auge de uma TPM fudida já penso totalmente o contrário.

Sunday, January 07, 2007

A tendência é dar certo sempre, desde que se esteja de acordo e acredite que é possível.

Saturday, December 16, 2006

Ave Maria, mãe de ninguém

Raul Miranda

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
olhai pelos que não tem vintém
e caem a toda hora na tentação
de aliviar o peso do corpo
e a dor que perfura a alma.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
olhai pelos que querem alguém
a multiplicar a carne do amor
com o suor vindo do próprio viver
e vencer o anjo da solidão.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
perdoai a insistência em ser feliz
e iluminai os campos do país
dando de comer a quem tem fome
dando de viver a quem tem nome.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
deixai que os homens durmam em paz
pois que aos dias o inferno arde
e em cada esquina da cidade
uma ameaça paira sobre as casas.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
perdoai os loucos e os bêbados,
que tentam fugir um pouco da vida,
e que vêem cavalos de fogo
puxando carruagens de cristal.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
abrandai a falta de poesia
e deixai a vida nas mãos dos homens
até que estes se cansem de morrer
sem decifrar o enigma de viver.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
não nos deixai cair em histeria
e nem nos roube a valentia
de cruzar imensos meses
acreditando sempre nos humanos.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
abençoai os que amam a liberdade
e a defendem em outras línguas.
Lavai o amargor dos meus olhos
para que os amigos me leiam melhor.

Wednesday, December 06, 2006

As coisas não são perfeitas simplesmente por assim serem, mas por terem a incapacidade de atender por inteiro nossos desejos e expectativas.

Thursday, November 23, 2006

Retrato do tempo

Raul Miranda

Abençoado seja o homem que ri e passa horas sem sentir o cheiro de pólvora e naftalina, e que faz as crianças imaginarem como seria diferente o mundo se a escola ensinasse a vida se a escada nos levasse para o alto. Abençoado seja o homem que pára e repara na escassez de sonhos, recompondo a imagem primeira, seja ele mulato, branco ou triste. Abençoado seja o homem que fica e desobriga o choro noturno , ensinando o manejo das idéias para melhor mexer nos dias. Quem puder fale por mim as palavras de hoje e de sempre até que os homens se cansem de fazer da vida algo ruim.

Monday, November 20, 2006

Poema em linha reta

Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala comigo Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... Quem me dera ouvir de alguém a voz humana Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó principes, meus irmãos, Arre, estou farto de semideuses! Onde é que há gente no mundo? Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? Poderão as mulheres não os terem amado, Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? Eu, que venho sido vil, literalmente vil, Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.