Alicenógena

Saturday, December 16, 2006

Ave Maria, mãe de ninguém

Raul Miranda

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
olhai pelos que não tem vintém
e caem a toda hora na tentação
de aliviar o peso do corpo
e a dor que perfura a alma.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
olhai pelos que querem alguém
a multiplicar a carne do amor
com o suor vindo do próprio viver
e vencer o anjo da solidão.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
perdoai a insistência em ser feliz
e iluminai os campos do país
dando de comer a quem tem fome
dando de viver a quem tem nome.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
deixai que os homens durmam em paz
pois que aos dias o inferno arde
e em cada esquina da cidade
uma ameaça paira sobre as casas.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
perdoai os loucos e os bêbados,
que tentam fugir um pouco da vida,
e que vêem cavalos de fogo
puxando carruagens de cristal.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
abrandai a falta de poesia
e deixai a vida nas mãos dos homens
até que estes se cansem de morrer
sem decifrar o enigma de viver.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
não nos deixai cair em histeria
e nem nos roube a valentia
de cruzar imensos meses
acreditando sempre nos humanos.

Ave Maria, Mãe de Ninguém,
abençoai os que amam a liberdade
e a defendem em outras línguas.
Lavai o amargor dos meus olhos
para que os amigos me leiam melhor.

Wednesday, December 06, 2006

As coisas não são perfeitas simplesmente por assim serem, mas por terem a incapacidade de atender por inteiro nossos desejos e expectativas.